O MEU SÃO JOÃO!...

 

O S. João tem raízes profundas de tradição na alma popular e fontes espontâneas de inspiração na lira dos seus poetas.

O discípulo João, cujas reflexões evangélicas revelam a infinita e absoluta verdade amorosa do divino Jesus - o Filho de Deus morrendo por amor dos homens  - irradia a sua glória ascética no culto celestial com que a liturgia o celebra e na originalidade religiosa que a devoção popular lhe consagra.

A imagem querida e sugestiva do seu corpo esbelto, dilatando os varonis contornos do tronco nu na acentuada rigidez dos músculos salientes e da pele ígnea tostada pelas penosas jornadas através da solidão dos desertos, suportando a tortura da sede, sofrendo as privações da fome e vivendo neste isolamento de alma para meditação dos seus pensamentos e redenção dos seus martírios, deslumbrou a imaginação popular que fez dele o Santo da sua predilecção e a piedosa atracção da sua crença mais viva, mais pura e mais sincera.

O povo ergueu-lhe, no coração, um altar de fé e de amor.

E recortado em tosca ou ebúrnea escultura, por entre a cristalina transparência das redomas ou no alto de votivos nichos, a sua relíquia sagrada evocando, na fidelidade singular dos traços, o vulto garboso do Santo Precursor, de cabelos revoltos e de barba crespa, de face ossuda e de olhos cavados pela fadiga, ora impassíveis de austeridade extática, ora extremosos de atraente docilidade, pontificava a força omnipotente da sua santidade na intimidade familiar dos lares.

Absorvido na contemplação melancólica da sua imagem resplandecente das mais radiosas virtudes —instinto, encanto e paixão do seu ideal religioso —o povo simples e bom murmurava-lhe com fervor as suas preces e implorava-lhe com calor a sua protecção num idílio enternecedor de convivência risonha e de ternura tocante.

A sua presença celestial nos lutos e nas festas, nas lágrimas e nos sorrisos, nos infortúnios e nas alegrias dos que trabalham e crêem, dos que rezam e cantam, era uma luz de esperança, um bálsamo de conforto, uma fonte de resignação, quando os agravos, as adversidades e as desventuras do mundo ensombram a claridade amorável dos seus recatos domésticos, vendo nele o paladino heróico da sua fé, o conselheiro místico que nunca iludira a sua consciência moral e confidente espiritual que nunca traía as suas esperanças humanas.

Meu Santo...

E o peregrino angélico das estradas poeirentos e das areias calcinadas, que percorreu, descalço, o áspero calcário do seu apostolado evangélico crucificado na mais extrema humildade, lá no céu da luz infinita e da paz eterna do Senhor, abençoava as súplicas ansiosas e os queixumes impacientes dos que apelavam para a miraculosa divindade da sua compadecida indulgência e da sua condoída solidariedade: aprendei comigo a amar, aprendei comigo a sofrer!

Mas no dia grande em que a igreja comemora solenemente o seu nome configurado à paixão divina de Jesus Cristo, a onda sentimental dos seus crentes fiéis e dos seus devotos fervorosos espraiava-se pelo velho burgo taciturno, adormecido no sono das suas lendárias origens e embalado nos sonhos das suas visões históricas...

Uma romaria colorida de entusiasmo e de emoção popular acompanhava, em cortejo triunfal pelas ruas estreitas e pelas praças velhinhas cobertas de flores, a imagem do Padroeiro oscilando, imponente, no trono do seu pesado andor.

Nem coroas de Giro, nem incrustações preciosas, nem mantos de púrpura, nem adornos sumptuosos... Toda a expressão solene da sua grandeza litúrgica vibrava no relevo sóbrio, simples e singelo de sinceridade religiosa, sem afectações esplendorosas nem pompas magníficas.

Sobre a fronte espessa teciam-lhe uma capela de cravos, cujo perfume alado refrescava-lhe o busto abrasado das fornalhas solares e cujas pétalas macias acariciavam-lhe os pos macerados das tormentosas caminhadas, por entre as urzes e os cardos de veredas e atalhos silvestres, que santificaram a redenção sublime das suas peregrinações evangélicas.

Depois, quando o Santo regressava à beatitude do seu altar, reflexo da própria imagem e lampejo da penitência com que guiava o seu reino espiritual, resplandecendo no silêncio triste das naves sombrias e nas penumbras misteriosas que envolviam a seráfica estatuária do seu templo, a multidão dispersava numa ramagem derradeira à praia, no trajecto até ao mar erguendo-lhe hinos de glória, entoando-lhe trovas sentidas e, as freirinhas do Convento, lá do monte do Mosteiro, acenando-lhe à despedida com os lenços brancos da sua doçura monástica.

No firmamento, ainda claro mas já tingido de clarões rubros e roxos dos crepúsculos longos e saudosos, acendiam-se as primeiras estrelas...

O povo, porém, tem também inspiração e musa na alma dos seus poetas, como a sua ingénua e lírica, como ela ardente e sonhadora!

Mas «a tristeza lusíada é a mãe do nosso amor, que é a tristeza da saudade», afirma Teixeira de Pascoaes, cujo imensa e dolente miragem vibra na lira dos nossos poetas em prodígios de arte, de fantasia e de beleza.

Só um vocábulo a define frequentemente, ainda segundo Pascoaes: «a palavra mágoa que rima com água», em Bernardim Ribeiro

 

Querer contar suas mágoas

Seria areias contar...

 

mas muito mais significativamente em Camões, no episódio do Adamastor, «esse imenso trágico-fantasma de água e de terra»!

 

...por mais dobradas mágoas,

Me anda Thotis cercando destas águas.

 

Este vago e colorido sentimento que inflamou de tristeza e de saudade o lirismo português, dilata-se na incomparável hereditariedade que adapta o passado ao presente na tradição popular:

 

À fonte de S. João

Fui lavar penas e magoas:

- As penas eram tão negras

Que enobreceram as águas!

 

Assim nasceu a tradição do S. João de Vila do Conde. . .

 

 

Nesta terra, nascida e criada no culto de S. João, a sua exuberante tradição, inesgotável de fé serena c acolhedora, discreta e humilde, sem embargo das vicissitudes históricas, das transformações políticas e das crises sociais que afectaram profundamente a vida nacional, mantém a continuidade espiritual do seu primitivo ardor popular.

O seu acentuado caracter místico e colectivo que tudo espiritualiza, não se alterou, evoluiu ou romoveu-se, apenas, nas suas exteriorizações festivas.

Tradicionalmente apegado às suas crenças religiosas, o povo que desde recuados tempos se habituou a adorar fervorosamente a excelsa imagem do seu amado Padroeiro no Santuário dos seus lares, resolveu traze-lo para a rua e festejar a sua ascendência patriarcal nas praças velhinhas do seu vetusto Solar Medieval ou nos letreiros solitários dos seus bairros ribeirinhos, sob o esplendor do Sol e à luz das estrelas.

Ainda na véspera do seu dia grande, armavam-se cascatas cobertas de musgo verde, povoadas de típicos figurantes de barro dispersos por caminhos e carreiros caprichosamente desenhados em areia fina de praia e, na alegoria majestática do seu trono, o S. João sorrindo feliz e triunfante!

A volta, erguiam-se altos mastros desfraldando no topo a policromia álacre de garridas bandeiras, a que se prendiam, enlaçadas, grinaldas de buxos frescos e húmidos das orvalhadas de Junho.

E na baça penumbra do lusco-fusco, quando já pares galantes de namorados, aos cantos, arrulhavam promessas e juras de amor, acendiam-se as luminárias, soltavam-se os balões, creditavam as fogueiras... Improvisavam-se rodas e bailaricos... toda a noite dançava-se com desenvoltura, cantava-se com emoção, ria-se com alegria... No ar estalavam, estrepitosos, os foguetes... E o fogo de artifício banhava de uma claridade suave, o bulício ruidoso dos arraiais...

Mas, quando os alvores da madrugada rompiam os orvalhos macios da neblina esparsa na alvorada do dia, a debandada iniciava-se em rusgas joviais, juntando-se nas vielas estreitas a caminho da decrépita fonte musgosa, amparando aos muros tristes do soturno convento, a ruína nostálgica do seu passado de séculos, com o seu fio de água jorrando em murmúrios de regato...

Diante dos fanados encantos da fonte milagreira, corações pulsavam em efusões súbitas de pensamento voando até ao assento etéreo do Santo, poisando os olhos ansiosos no nicho lendário da vertigem e da miragem do amor suplicante das bodas perenes juradas aos pés do seu altar.

Quantas ambições, quantas esperanças, quantas ilusões desfeitas, pela insensível trajectória da pedrinha perdida, longe do alvo miraculoso...

Em terra de navegantes, todo este espectáculo de feérica simplicidade extinguia-se já dia alto, entre efusivas ovações trovadorescas, na praia beijada pela espuma branca do mar, do sonho e da aventura lusíada, em cujas ondas erravam as sombras de tantos heróis vila-condenses.

Era uma festa de família, de paz e de amor, de raízes singelas na sensibilidade confraternizadora do povo, cujos aspectos mundanos e, por vezes, de travessas irreverências, nem de perto desacatavam a dignidade soberana do Santo, nem de longe ofendiam a pureza imaculada da Sua Santidade.

 

Se pecados a frágil humanidade dos seus súbditos cometera ou se estouvados excessos houvera na noite de folia deleitosa, toda a volúpia dos seus brejeiros costumes de juventude e de alegria se redimia no grande dia, na unção comovedora e solene com que, em alas compactas, a multidão assistia ao desfile do Padroeiro, atravessando as ruas silenciosas, encarnado na sua imagem hercúlea, hierática e rígida de austeridade impecável.

A tradição secular do cortejo processional cumpria-se religiosamente na pobreza descalça do Santo, o tronco fúlgido, tisnado dos braseiros inóspitos, as mãos grossas e calosas segurando o pesado cajado e a coroa de cravos baloiçando-se na brônzea fronte molhada dos suores das fadigas peregrinas.

Dobravam-se os anos de radiantes festividades sanjoaninas, consagradas pelo sentimento público de um ingénuo lirismo religioso, até que, há 60 anos, para rejuvenescer o calor e o entusiasmo da tradição ou para concentrar a dispersão dos seus festejos, uma plêiade de destacadas personalidades locais decidiu constituir dois agrupamentos - a Praça e o Monte - fundidos em uma aliança de juventude e de arte, cujas representações inauguraram uma época singular e pitoresca, de notoriedade popular, nas comemorações do Padroeiro.

 

Com os postos máximos da hierarquia castrense —marechais e generais—distribuídos na Praça, pelo Dr. Cunha Araújo, Dr. José Ferreira, Duarte Silva e Francisco Barbosa e, no Monte, pelo Dr. Pereira Júnior, Dr. João Canavarro, Dr. António Silva e Cândido Rodrigues, estes consulados de prestigiosas figuras do nosso meio social atraíram subalternos apoios de briosas dedicações e conquistaram bastes aguerridas de fanáticos adeptos, depressa arvorados em acérrimos protagonistas de renhidas lutas sectárias.

Entre as primeiras a Gracinda e a Júlia Marrafeira foram, na Praça, um espelho vivo de garra, de raiva, de codícia da paixão partidária que tinha o seu quartel general na casa Flores Torres.

Quanto às segundos, não se sabe, porém, quais as razões que definiam as numerosas predilecções por qualquer dos agrupamentos, até porque nada essencialmente deferia as características fundamentais de ambos.

A onda frenética de alvoroçada vibração que dividia os seus ferrenhos apaniguados em compactas falanges hostis, só se explica, portanto, por aquele misterioso impulso natural e espontâneo, de sensitivos reflexos emocionais.

Nós próprios não sabemos, ainda hoje, como nasceu e perdurou, a sincera preferência da nossa simpatia pela Praça. Não foi por casualidade nem certamente, apesar da nossa ardente devoção pelas místicas virtudes do Santo Precursor, influenciada pela revoada de alegria visionária de um poeta divagando com a incrível fantasia de que, certo dia, no seu trono da Matriz, o S. João

 

 Erguendo-se com vida e graça,

 Disse a quem o quis ouvir:

 «Eu sempre fui da Praça!»

 

E o período mais efervescente da novelesca rivalidade entre os dois ranchos, coincidiu exactamente com os anos mais ditosos da nossa mocidade, neste momento as suas recordações mais felizes emergem do nosso pensamento, diluídas em reminiscências, arquejando nos recantos da nossa memória exausta de 50 anos passados!

Sob o ponto de vista estritamente sentimental, toda a intempestiva hostilidade que opunha as emulações partidárias dos dois ranchos em campos extremados de permanentes conflitos, residia num duelo de críticas acerbas e de sátiras mordazes primorosas de espírito, de ironia e de imaginação!

Não havia habilidade que se não forjasse, expediente a que se não recorresse nem pretexto que se não utilizasse para superar a malícia, surpreender a astúcia ou vencer a intriga do adversário.

Uma destas brejeiras congeminações, ocorreu no ano em que, quando se procedia às obras de restauro de Santa Clara, casualmente veio parar às mãos do Dr. João Canavarro uma desbotada miniatura a óleo, abandonada entre as velharias desvaliosas do opulento recheio da monumental Igreja, representando um anónimo guerreiro medieval envergando as clássicas roupagens dos torneios feudais.

Com bizarra audácia nas festas do próximo S. João, o Monte aproveitou o auspicioso ensejo para estampar a vera-efígie do famigerado gladiador em folheto da sua propaganda, sob uma legenda de retumbante revelação: «D. António Silvares. Fundador do Rancho do Monte».

Não se fez esperar, porém, a resposta a essa ardilosa excogitação do Monte para corroborar as origens de um fantástico passado.

De imediato improviso, surgiu afixado, no Quartel General da Casa Flores Torres, um comunicado sensacional reproduzindo na mais castiça e vernácula linguagem setecentista uma carta proveniente dos Paços Reais, escrita pelo próprio punho do Rei D. Manuel I, onde o Venturoso monarca felicitava calorosamente o Rancho da Praça pelos seus brilhantes sucessos artísticos, em pleno apogeu da Renascença.

Mas no relevo da tumultuou história dos Ranchos da Praça e do Monte, os rumores públicos, de euforia ou de desanimo, destes acontecimentos ou de outros semelhantes, influíram poderosamente nas ironias e nos contrastes de humor do caracter pessoal afectando, muitas vezes, a compostura social de curiosos tipos, aparentemente tímidos e prudentes, todavia exorbitando as suas sensíveis predilecções no desaforo colérico de absurdas obstinações partidárias.

Nesse aspecto, o Felismino da Fazenda, como era vulgarmente conhecido por ter exercido o cargo de Secretário das Finanças na nossa terra, tal como nos foi dado privar nos derradeiros anos da sua vida, era uma daquelas existências respeitáveis de hábitos sóbrios e de educação esmerada, de caracter íntegro e de coração generoso, de convívio afável e de impecável cortesia.

A Praga foi, para ele, o deslumbramento de uma irresistível e soberana atracção!

Quando chegava o S. João, no ambiente denso de suspeição e de agravos mútuos que se gerava, o Felismino perdia a cabeça...

As suas reacções não eram apenas de rude e brusca intolerância, eram ostensivamente agressivas...

No próprio dia da festa, quando os corifeus das duas partes beligerantes, reunidos no «Nacional», trocavam chalaças e piadas contundentes num despique de ruidoso convívio, a figura franzina do Felismino, de ar grave e o busto levemente curvado pelo peso dos anos, a que o cravo vermelho na lapela sugeria remoçada juventude, logo que assomava à porta, toda aquela escaldante e buliçosa assembleia mergulhava num silêncio pesado e solitário de cemitério.

Os do Monte escapavam-se sorrateiramente aterrados, escapulindo-se ao confronto inevitável com a intrépida galhardia da inflamada paixão do implacável pracista, evitando as consequências de um conflito desagradável que comprometesse lamentavelmente o respeitoso conceito de uma velha e antiga amizade. E se alguma suspeita o invadia das traiçoeiras invectivas e dos remoques venenosos que pairavam ainda no sussurro das exclamações de aplauso ou de protesto, contra elas se insurgia furiosamente, perante a expectativa risonha e apaziguadora dos seus correligionários mais pacíficos.

Desses dias distantes, de tantos episódios explosivos de humorismo sarcástico e de surpresas caprichosas, cuja memória conservamos impregnada de imagens e de evocações saudosas, lembro ainda, e jamais esqueceremos, a noite colorida dos encantos de perenes ressurreições populares, surgindo melodiosas, em visões feéricas, por entre as névoas da nossa sensibilidade confrangida: a noite de S. João!

A marcha estridente, esfuziante de luz e de cor, de graça e de alegria rompendo por entre a multidão impaciente que aclamava, em delírio, os seus pares gentis - elas de minúsculos aventais rendados agitando entre os dedos esguios as pandeiretas de fitas multicolores, eles segurando entre as mãos nervosas os trémulos balões e ambos de cravos rubros sorrindo ao peito - iluminavam as ruas do trajecto até aos pavilhões sugestivamente decorados aos acordes do coro triunfal:

 

Ó Praça, ó linda Praça abençoada!

Com alma assim, jamais hás-de morrer!

Com o Monte na luta costumada,

Mais uma vez, ó Praça, hás-de vencer!

Meu S. João! Que Saudades!

 

                        Por Zizo Almeida