LEMBRANÇAS DA PRIMEIRA IDA AO FERROL

 

A primeira ida ao Ferrol do Rancho da Praça não foi isenta de alguns, não muitos, percalços. As viagens, nesse tempo, não se faziam com a comodidade e a segurança (ou insegurança?) de agora e os motores não tinham uma potência que lhes permitisse aguentar com galhardia um esforço mais aturado. Quando eram obrigados a puxar por uma carga mais pesada nas subidas, arquejavam, resfolegavam, era preciso parar ou aliviá-los da carga, para chegarem a termo. Então a iluminação dos faróis que penetrava nas trevas, era precária. Precisava-se de prestar grande atenção à estrada para fugir ao escalavrado do pavimento e às ratoeiras das valetas, se nos aproximávamos perigosamente das bermas e nos enterrávamos nos escorregadios lodaçais.

Talvez por essa razão, o Rancho da Praça chegou tarde, já noite fechada, a Santiago de Compostela, com as estrelas a picar nervosamente o céu escuro e a recamar, com uma toalha de prata, a imensidão silenciosa do Universo. A própria cidade parecia estar ausente, recolhida em casa para a «cena» e o repouso habitual. Não se via ninguém nas ruas e o vasto largo diante do vulto rendilhado da catedral e das casas circunjacentes, semelhava a acrópole abandonada duma civilização já morta. Os passos ecoavam no pesado lajedo e despertavam remotos ecos no bronze solene dos sinos das torres. Para os lados do «Postal», onde os peregrinas durante séculos se retemperavam das largas caminhadas e das pesadas penitencias, para comungarem com o Apóstolo e entregarem à sua vigilante caridade os corpos destroçados pela doença e as consciências feridas pelo pecado, as tímidas luzes dos candeeiros mostravam a nobreza dum portal lavrado, em que a renda do plateresco parecia erguer doces litanias por toda a cidade medieval. Ao partirmos, depois de jantarmos, a noite ia adiantada, num correr desvairado do tempo por entre o emaranhado das ruas apertadas e a lonjura infindável das estradas ermas.

 

Depois de termos andado alguns quilómetros, uma névoa ligeira, como farrapos de gaze vindos das alturas, começou a definir-se à distancia, numa ameaça envolvente e perigosa. Estávamos a aproximarmo-nos da subida que nos levava até Betanzos, uma antiga povoação que foi pertença de Fernan Peres de Andrade, um grande senhor da Galiza, que foi tio-avô de D. Brites de Andrade, mulher do senhor de Cantanhede, D. Fernando de Meneses, cuja arca tumular se encontra no nosso Mosteiro de Santa Clara, com aqueles dizeres de tão saborosa expressão medieval:

 

Pois que não teno poder

Senhora, de me partir

De vos amar e querer,

Por vostro quero morir

E moiro de madama.

 

            Betanzos era uma esperança, sinal de que o Ferrol não estava muito longe e que, em breve, repousaríamos destas primeiras andanças por terras de Espanha. E fomos continuando. A névoa tornou-se mais pesada e transformou-se num nevoeiro fechado. O andamento da camioneta passou a chouto lento, cada vez mais lento e cuidadoso, no enervante receio de, a todo o momento, nos despenharmos por uma ribanceira ou cairmos num precipício. Foi necessário parar para que um ajudante improvisado se colocasse à frente a indicar o caminho e podermos prosseguir com segurança a viagem. Não se via um metro de estrada e os faróis, com as suas luzes oscilantes e tímidas, não perfuravam a cortina espessa que nos envolvia. Só perto da cidade é que o nevoeiro começou a dissipar e os vultos das casas, ainda isolados, a surgir como escolhas no litoral. Estávamos às portas do Ferrol, já com os pneus a rolar no pavimento empedrado e as ruas a definirem o seu traçado tortuoso e antigo. Passava das cinco da manhã. A nossa espera, ninguém. Aquela recepção que nos tinha sido anunciada, talvez com palmas, flores e girândolas de foguetes, desvanecera-se, como o nevoeiro, e transformara-se num silêncio apagado e frio. Estávamos sós, cansados, esgotados pela contenção nervosa duma viagem prolongada e fatigante, desejosos dum repouso que nos permitisse retemperar as forças para enfrentar, dentro de horas, as exigências dum programa demasiado cansativo.

No dia seguinte, com o sol a bater na frontaria das casas e a espelhar-se nas águas transparentes do mar, a cidade resplandecia. O Ferrol, debruçado sobre a enorme baía que contorna a costa acidentada, despertava lentamente para o trabalho, numa sinfonia de sons que levantava um coro harmonioso e solene. Nas ruas ensolhadas e recolhidas descobriam-se rostos curiosos às janelas e vultos airosos de raparigas debruçadas nos balcões de ferro. Pareciam acenar-nos alegremente e dar-nos as boas-vindas que nos tinham sido negadas na véspera. Nos jardins sossegados, o chalrar descuidado das ferrolanas era como uma saudação carinhosa e nos seus sorrisos, tocados por doces mistérios, parecia haver aquelas escondidas promessas que a luz dos olhos disfarça...

 

Fácil foi vencer o natural retraimento das primeiras horas e, todos juntos, caminhamos descuidados e felizes. A vida ainda não lançara o seu manto de desconfianças sobre a nossa mocidade nem nos tornara avessos aos sentimentos mais ternos da afeição. Foram dois dias de saboroso convívio que, se não deram às despedidas a emoção forte das lágrimas, foi porque pensávamos que a separação não seria demorada e que outros encontros nos aproximariam. A guerra, devastadora e fratricida, contrariou os nossos propósitos que só se concretizaram muitos anos depois, renascidos de cinzas que nunca deixaram apagar o lume do afecto, tão profunda e duradoura amizade se estabelecera entre D. Ricardo de Castro e Adroaldo de Azevedo, os promotores do primeiro encontro. Pode dizer-se que foi devido a esses dois homens, generosos, dinâmicos, empreendedores, com ideias bem definidas sobre a forma de alimentar as raízes sentimentais que entrelaçavam as duas terras, que se firmou a amizade entre Vila do Conde e o Ferrol - uma amizade despida de quaisquer interesses e artifícios, alicerçada na pureza dos sentimentos mais nobres; uma amizade trazida no murmúrio dos séculos e nas vozes dos cantares vindos de remotas eras; uma amizade firmada numa herança que floresceu à sombra do convento, na igreja do mosteiro onde repousam, de mãos dadas, os corpos dos BEM CASADOS.

 

O regresso a Vila do Conde também teve o seu percalço, indesejado e imprevisto. Os campos verdejantes da Galiza iam se desdobrando ao longo do percurso, com as suas manchas aveludadas e os cabeços dos montes toucados por sombrias penedias, num aceno demorado. A água serpenteava por entre gargantas estreitas, para depois correrem amenamente por vales extensos, em levadas fertilizantes. Passamos Betanzos, com o sol ainda a pino; atravessamos Santiago de Compostela, assinalada ao longe pelo coruto das suas torres medievais; chegamos a Pontevedra, já com o sol a declinar no horizonte; e encaminhámo-nos para Vigo mais apressadamente, para podermos alcançar a fronteira antes que o dia terminasse e nos impedisse de prosseguir a jornada. Se não nos perdemos no emaranhado das ruas e no movimento das praças, demoramos tanto que, quando chegamos à fronteira espanhola, logo nos advertiram que deveríamos deparar com a de Portugal fechada. Os nossos compatriotas, mais rigorosos no cumprimento do dever, ou mais ansiosos de chegar a casa, obrigaram-nos a ficar toda a noite metidos na camioneta ou a peregrinar sobre a ponte, à espera que amanhecesse para nos deixar regressar tranquilamente a casa. Não fora um fim de excursão agradável, que correspondesse à generosidade do acolhimento que nos tinham dispensado no Ferrol, no testemunho duma amizade que ainda hoje perdura - fora apenas mais um incidente do percurso, que não bastava para ensombrar as claridades que nos inundavam de alegria nem perturbar a doce nostalgia que já fazia latejar de saudades o nosso mundo de recordações.

 

Por Joaquim Pacheco Neves