S. JOÃO E O RANCHO DA PRAÇA

 

Já lá vão anos que, entre os adeptos do Rancho das Rendilheiras da Praça, se levantou a questão de saber se este agrupamento era simplesmente regional ou se teria caracter autenticamente folclórico. Também participei em diferentes conversas, onde este assunto se debatia, optando por querê-lo mais folclórico do que regionalista, e recordo que um dos argumentos então aduzidos era o do sabor folclórico dos seus cantares, pesasse ainda o muito de regional que ainda hoje se inclui no seu cancioneiro, não esquecendo tudo quanto de espúrio nele se contém na sua maneira de ser e haver, tal como o conhecemos presentemente, e quantas infiltrações nele se deram a moldar-lhe a maneira de ser.

Daqui lhe advém que muitas virtudes que possui e lhe são muito próprias, nos obriguem a remontar às suas origens que só nos nossos dias se afirmam com toda a documentação que lhe conhecemos e com a mesma vitalidade generosa de um jovem de sessenta anos cujo aniversário estamos a celebrar, podendo afirmar-se que o S. João que se celebra em Vila do Conde é uma afirmação de devoção antiga, possivelmente milenária, que nos foi legada e que continuamos a celebrar na continuação desse mesmo legado.

Um dos documentos da longevidade deste culto de raiz folclórica, está na imagem do nosso Santo Padroeiro, que ostenta o pórtico da nossa Matriz desde que lhe encimaram a cabeça e lhe ornamentaram a fronte com a «Capela» de cravos tão do nosso agrado, como verificamos sempre que admiramos o belo pórtico daquele monumento nacional.

É de época anterior a esta, o documento conservado na nossa Biblioteca Municipal, de origem aquitana, que testemunha a influência do culto Sanjoanino na nossa terra, e que nos faz remontar ao Século XII.

De igual modo e de origem popular também, é a vivência destas coisas mesmo contadas através de um dos nossos vales populares, primoroso na expressão de muita dedicação ao nosso Santo Padroeiro, quando a Ele se refere ainda que interferindo em questões muito particulares, assemelhando-as às nossas questões humanas quando se trata de tomar peito junto de um colega, ainda que Ele seja o Santo claviculário:

 

«Espera pelo teu dia que vem perto,

E Eu te abrirei a porta, sacristão;

Mas quando, um dia, velhinho como nós,

Bater, pedindo entrada,

Esse prior... Que bata o que quiser!,

Que eu digo lá de dentro...: está fechada!»

 

Se recordamos o jovem poeta da Praça, Duarte Ribeiro da Silva, também não poderemos esquecer o então «jovem» Dr. Artur da Cunha Araújo, quando repentinamente era solicitado a intervir ainda que fosse a desoras em noite de S. Pedro e cantando:

 

«O Costa de camarote,

Diz umas coisas sisudas

'té parece estar a ler

O testamento do Judas. »

 

E quem tudo isto cerzia era o mestre Saraiva, improvisando uma batuta com as chaves da sua porta de entrada.

E seria um não acabar de citações, se tivéssemos de continuar, lembrando quantos no decorrer dos tempos se notabilizaram entre nós, exaltando o nosso Rancho da Praça - Rendilheiras de Vila do Conde.

 

 

Por José Maria Fernandes Bompastor