QUE DAQUI A SESSENTA ANOS ...

 

O Rancho da Praça não nasceu de um dia para o outro, numa manhã do já longínquo ano de 1920. Foi uma ideia que surgiu, criou entusiasmo, teve adesões, ganhou corpo e tornou-se realidade. E hoje, ao que suponho, ninguém poderá dizer-nos quem teve a ideia, quem contagiou com o seu entusiasmo os mais timoratos, quem lhe deu corpo, quem lhe insuflou a vida que cada geração renova, estimula e garante o vigor que o torna sempre jovem, ou ele não fosse, na sua máxima expressão, um eco saudável de juventude, apoiado por juventudes que foram e outras que hão de ser.

As manifestações que se concretizam, são assim mesmo, nascem espontaneamente do povo que se quer realizar. Foi o povo de Vila do Conde que, expressando-se, sonhou e criou o Rancho da Praça. E ele ai está, vivo, e tanto mais vivo quanto mais popular.

Mas voltemos a 1920, o ano do seu nascimento, para ver a vida de então para melhor se apreciar o valor da iniciativa e, se bem que não seja esse o nosso propósito, tirar ensinamentos para o presente.

Como era o viver do povo nesse ano tão próximo ainda do fim da Guerra de 1914/1918?

Duro. Duro. A avaliar pelo que podemos lembrar de 1926.

A alimentação era pobre e escassa, à base de pão de milho, quartas vezes amarelo, cozido de oito em oito dias, para os que podiam cozer fornada. Caldo e boroa era a alimentação da maioria. Uma minoria privilegiada comia pão de trigo, ou de mistura, sêmea e pão coado, todos os dias. Mas, para tantíssima gente, pão branco era um luxo de dia de festas e, na melhor das hipóteses, de Domingos. Certo para toda a gente era comê-lo no dia de Páscoa. O verdadeiro folar era a rosca de pão de trigo.

Para conduto ou presigo, para os que podiam ter, bacalhau escamado, boca-torta e savelha, toucinho gordo, batatas no seu tempo. Outros peixes, muito raramente; só em marés de fartura. Carne de vaca ou galinha, em dias de festas e em ocasiões de parto ou, então, quando a doença era brava.

De manhã, migas de pingue ou unto, ou então café de cevada nos meses de mais fartura, o vinhinho, muitas vezes água-pé, esse é que não podia faltar.

Isto no que diz respeito à alimentação. Pode-se imaginar agora, sem água canalizada, sem esgotos, sem insecticidas, como era difícil a higiene e o que era necessário de precaução para se andar verdadeiramente limpo.

Lindas moças, cuja adolescência a minha meninice admirava cheia de afeição, tinham de fazer prodígios para o seu bem parecer tão apreciado, que ainda hoje se não vê melhor. Eram tempos maus. Duros. Comparados com os de hoje.

A água ia-se buscar às fontes. A energia eléctrica um luxo, pois o petróleo e o carbureto era a iluminação habitual, quando não eram as velas de estearina. O cozinhar era com lenha, para a maioria, e serrim.

A acrescentar a tudo isto, a doença. Nessa altura, que bem nos recorda e mágoa provoca, as vítimas que a tuberculose ceifava!

Quantas rendilheiras lindas a definhar, a definhar e a partir tão cedo, quando o Outono chegava, com o dobrar dos sinos que entristeciam toda a vila.

Como ficava, todos os anos, mais restrito o círculo da juventude!

Entretanto, a nossa Terra estava paralisada, a deixar-se envolver por ruínas, sem dinamização.

Pesava sobre ela um entorpecimento.

Pois é nesta paisagem e neste viver e com este viver que o desejo da população jovem de se reunir para cantar, para bailar, para se impor, para conviver, para festejar o Santo Padroeiro, fez nascer o Rancho da Praça.

É esta maravilhosa manifestação de vida, de se superar, de marcar uma posição que queremos reter, dar, e não podemos esquecer, para deixar bem claro neste ano de 1980 que muito pode fazer o povo e a sua parte mais moça quando decididamente QUER, e sobretudo quer ser ela própria, a viver a sua vida com dignidade, alegria e beleza.

A mocidade deve querer, sabendo bem o que deseja, e avançar; impondo-se pelo que realiza à senilidade paralisante e aos que já nasceram velhos. Foi isto que fez parte da gente moça de Vila do Conde em 1920, que também teve os seus detractores, as suas montanhas de obstáculos, os seus velhos do Restelo.

Mas continuemos.

Revendo a fotografia do primeiro Rancho, todo alinhado, talvez a nata das rendilheiras e dos artistas de então, verifico como ela esconde a realidade de um viver que não era fácil, mas como dá com vigor a presença, a força e o valor da juventude que se distinguiu entre os seus pares.

Há em muitos um olhar de confiança e até de desafio, como que a dizer: Vencemos e este é o primeiro elo de uma cadeia que não terá fim.

Desde aí, o Rancho da Praça insere-se na vida da própria Vila. E criou tradições que são quadros expressivos do nosso comportamento e da nossa maneira de ser e de estar na vida.

Mas vamos abrir um parêntesis. Não podemos falar ou continuar a falar do Rancho da Praça sem mencionar, por necessidade e melhor compreensão, o Rancho do Monte. A população vilacondense, está, naturalmente, bipolarizada. Ou se é da Praça ou do Monte. Se um é governo, o outro é oposição, com as suas críticas, ultrapassagens e criações. São os dois que se estimulam um ao outro. Mais: se um existe, é porque o outro vive. São eles que vão, desde o seu nascimento, dar uma nova fisionomia, uma expressão de alegria e um cartaz garrido a Vila do Conde. E fechemos o parêntesis.

E que o Rancho da Praça é um produto e uma razão de ser do vila-condense, que inspirou e faz reviver no dia-a-dia das suas canções os seus poetas, e que criou tradições que nos são caras e que não queremos perder, está na maneira, no cerne, como celebramos as festas de S João, o nosso Padroeiro.

Podem ampliá-las, dilatá-las, enchê-las com o que quiserem, até com modas de ocasião ou importadas, mas o povo só adere mesmo ao tradicional, ao que criou, ao que é verdadeiramente seu, ao que os Ranchos lhe traz de vivência, de luta, de competição e de calor humano. Pois S. João mesmo é Vila do Conde dividida em dois grandes grupos, para melhor o festejarem.

É a marcha dos Ranchos a caminha dos seus pavilhões na noite santa e perfumada de 23 de Junho. São as suas danças e os seus cantares em que a multidão espera novidades e despiques. 113 a incorporação na Procissão, a mais popular e a não menos plena de adesão e religiosidade. ~ a ida à Praia: a confraternização de classes e idades.

E é isto, verdadeiramente, o S. João de Vila do Conde. Os festejos a S. João bem queridos e participados. Tudo o mais são excrecências com lugar em qualquer altura.

Soubéssemos todos nós aproveitar, repensar o que significa essa saudável, irreprimível e extraordinária «ida à Praia», esse espetacular fim de festa, para fazer dele uma monumental confraternização entre os vila-condenses e quem nos visita!

É que esta «ida à Praia» no dia de S. João tem muito significado, muita história, e é toda a população a despedir-se, plena de vitalidade, da sua festa que recomeçará no próximo ano.

A «ida à Praia», onde só se ia no Verão ou em dia de «baleia dada à Praia», era o elo que ligava a Vila ao Verão que começava, à vida que ia fervilhar naquelas ruas quase que desertas, era a inauguração da época balnear, o tornar viva e unida toda a Vila do Conde. Mas era também o cantar alegre ou saudoso junto ao Mar. Ao Mar de Vila do Conde. Ao nosso Mar que separava - ou ligava? - os que cá estavam aos vila-condenses ausentes em África e sobretudo no Brasil bem-amado, onde nesse dia ou nessa noite por morros e favelas vozes patrícias se erguiam a cantar ao S. João de Vila do Conde, enquanto uma fogueira crepitava para aquecer a alma que nesse dia se sentia triste e fria pela ausência. Pois a «ida à praia» era uma maneira de, pela lembrança, unir todos os filhos desta Terra na GRANDE FESTA.

E como povo que fez nascer e deu vida a estas festas e tradições que são o quotidiano de hoje em dia, o Rancho da Praça cresceu e estruturou-se. E foi tal a fama que alcançou, que outras gentes e outros festejos o apeteceu e solicitou para o ter consigo para melhor o admirar e os abrilhantar. E as suas saídas são como que um rosário de êxitos e delas falam os arquivos dos jornais e os que o acompanharam.

E ao ver um caderno de recortes de saídas por este País fora e pelo Estrangeiro, ao ler o que as nossas rendilheiras inspiraram, os nossos olhos ficam presos no à-vontade e na alegria expressa, na confiança da sua juventude e do seu trabalho, de duas rendilheiras juntas e na residência do então Chefe do Estado, General Oscar de Fragoso Carmona, e de sua Mulher, numa fotografia de antologia que muito tem que contar e nos diz da simpatia que o Rancho da Praça espalhava e de como era falado para ser recebido, da maneira que foi, pelo Chefe do Estado.

Estamos a festejar um jovem de sessenta anos. Jovem que será sempre jovem, pois que é de juventude formado. E nesse festejar, lembrando tanta gente que o Rancho fez sobressair, inspirou, por ele lutou, trabalhou e se sacrificou, eu não esqueço que para lá das individualidades está sempre o povo. O povo de artistas e de rendilheiras que o sonharam e realizaram. Povo que é a sua alma e o seu nervo. Povo que na festa de S. João extravasa toda a sua maneira de ser e de agir e a espraia por toda a Vila que nesse dia cheira a cravos e a mangericos.

Tem 60 anos o Rancho da Praça.

Vão longe os tempos amargos, duros e ásperos da vida quotidiana da década de vinte.

Outros tempos e outras perspectivas são e têm os nossos.

Mas não nos podemos esquecer e render preito a essa maravilhosa mocidade que sabendo ser jovem e do seu tempo criou, não sem obstáculos e censuras, uma parte integrante do nosso viver, tanto que estamos nele inserido e por isso, mesmo aqui e neste momento, estamos a continuá-la.

Mas repetimos, outros tempos, bem melhores, são os nossos. No entanto não podemos deixar-nos embalar pelas benesses que ele nos dá e ficarmos de braços cruzados. Cada geração tem a sua tarefa específica a realizar, só assim a humanidade avança.

Fala-se, hoje em dia, em canto e em dança, como novidades a dar aos portugueses, como se nós não o tivéssemos feito, organizadamente, há sessenta anos a esta parte!

Unicamente do que precisamos é apropriarmo-nos das técnicas dessas duas actividades artísticas, hoje mais facilmente acessíveis através de escolas e de tempo, e tornar o nosso Rancho culturalmente mais competente, estruturado e mais fecundo; mais de acordo com os desejos e aspirações da juventude de hoje, continuadora dos que do NADA fizeram o que é esta realidade magnífica de ensinamentos e de maiores esperanças ainda.

Falamos do trabalho e dos frutos de uma Mocidade de há sessenta anos. Pois que daqui a sessenta anos, ainda, como deve ser, falando dela, seja lembrada a que foi a de 1980 pelo que fez e realizou, tornando mais coeso, responsável e digno de Vila do Conde, o nosso querido e amado RANCHO DA PRAÇA.

 

Por Celso Pontes