DEPOIMENTO DUM COMPONENTE DO RANCHO DA PRAÇA

 

Nunca pensei que, passados que foram 46 anos, me fosse dado o ensejo de poder transmitir em letras de forma estes ligeiros apontamentos que rabisquei, sem outro desejo que não fosse o de reler, mais tarde, aquilo que houvera escrito nos belos e inesquecíveis tempos da minha mocidade, como componente do glorioso Rancho das Rendilheiras da Praça. Por via disso, contente estou por me ser dada esta oportunidade numa altura em que está a ser comemorado o 60.° aniversário da sua fundação.

Para começar dir-vos-ei, caro leitor, que a minha participação como componente deste grupo começou em 1931, para vir a ser interrompida três anos depois, por virtude de ter de cumprir o serviço militar.

Foi precisamente nos primórdios do ano de 1931, que o Rancho da Praça passou a exibir-se fora-de-portas. Até aí ele só se organizava por ocasião dos festejos em honra de S. João e de S. Pedro, seguindo aquela tradição que já vem do tempo das monjas de Santa Clara, quando elas, junto dos muros do seu Convento, entoavam trovas de sabor popular em louvor do Padroeiro da Vila - S. João Baptista, às quais o nosso povo respondia com verdadeira unção religiosa. Deixou, portanto, de ser aquele Rancho caseiro, com características próprias, para passar a exibir-se por várias terras não só do País como da Espanha e da França, com grande proveito, diga-se com verdade, da terra que nos foi berço, por daí advir um óptimo cartaz de propaganda das nossas tão apreciadas rendas de bilros.

A primeira deslocação do Rancho da Praça, nesse ano, foi ao Teatro S. João, do Porto. Para começar pode dizer-se que essa exibição agradou. E tanto assim, que pouco depois foi novamente a esta cidade, mas desta vez ao Campo do Bessa para abrilhantar a «Semana dos Tuberculosos» com caracter beneficente.

O primeiro encontro, que me lembre, dos nossos dois Ranchos - o do Monte e o da Praça - a exibiram-se no mesmo local e na mesma noite, deu-se nos jardins da Avenida Júlio Graça, desta Vila, no Verão desse ano a que nos estamos a reportar -1931. Decorria a «Semana da Misericórdia» sendo cada um por si e no seu conjunto bastante aplaudidos pelos seus numerosos adeptos.

Novamente do Porto nos vem o pedido para o Rancho da Praça se exibir no Salão de Silva Porto, sito na Rua de Cedofeita, por ocasião duma Exposição do Vinho do Porto.

Outro convite surgiu, mas este vindo de Barrozelas, uma pequena povoação ali para os lados de Viana do Castelo, ao qual o Rancho da Praça acedeu.

O Agosto de 1932 foi para os componentes um mês em cheio. A notícia de que o nosso Rancho estava contratado para se exibir em Espanha, mais propriamente na cidade de Pontevedra, foi motivo de muita alegria. Os ensaios redobraram-se porque havia que programar novas canções. Foram duas as danças que se improvisaram, com letra do nosso querido poeta Dr. Cunha Araújo, de saudoso memória, as quais o nosso Rancho soube cantar e dançar com muito calor, naquela tarde memorável de 15 de Agosto, debaixo de aplausos estridentes da numerosa assistência, constituída por espanhóis e portugueses, aplausos esses que viriam a culminarem-se no final da nossa exibição ao entoarmos o hino das duas Pátrias amigas - Espanha e Portugal.

Para tomar parte numa excursão, promovida pela Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte, o Rancho das Rendilheiras da Praça é convidado para se integrar nela, tendo-se exibido em duas das principais terras do percurso: Vizela e Guimarães.

Voltamos novamente à cidade do Porto. Desta vez foi para o nosso Rancho se exibir no Palácio de Cristal, por ocasião da «Semana do Mutualismo».

A convite dos Funcionários Administrativos do Norte e para tomar parte no seu passeio anual, o Rancho da Praça acompanhou-os a Braga, onde se exibiu.

Foi em Setembro de 1933 que o nosso Rancho fez a sua digressão mais longa, durante cinco dias. Depois de se ter exibido em Coimbra, à tarde e a noite, foi de abalada até à cidade de Estremoz, em pleno Alentejo, para depois seguirmos para Lisboa, onde o Rancho se exibiu no Capitólio, sala de espectáculos situada no Parque Mayer.

Dias depois, tomamos parte na «Semana da Misericórdia», que decorria nos jardins da Avenida Júlio Graça, desta Vila.

Ainda no mês de Setembro, e a pedido da Associação dos Bombeiros Voluntários de Leixões, o Rancho da Praça deslocou-se a Matosinhos para tomar parte na eleição da Rainha das Operárias de Conservas, a qual teve lugar na antiga Praça de Touros.

As deslocações do Rancho da Praça, no decorrer do ano de 1933, terminaram em Espinho com uma exibição no Casino daquela praia. (Foi precisamente esta a última vez que envergou o tão característico traje das Rendilheiras de Vila do Conde).

Como depoimento final devo dizer que não esquecerei nunca aqueles momentos de alegre convívio não só com os directores como com todos os componentes do Rancho, não deixando de salientar que ainda me foi dado assistir, com o maior contentamento, à inauguração do edifício da sua sede, construído a expensas do que foi um dos maiores «pracistas» de todos os tempos, o saudoso Francisco de Barros Barbosa, naquele dia 8 de Dezembro de 1933. O acto, que se revestiu duma certa grandeza no nosso meio, foi bem uma demonstração do quanto constituía para este grande benemérito a prosperidade e a continuidade do seu muito querido Rancho das Rendilheiras da Praça.

 

 

Por Antero Gomes