Rancho da Praça - Rendilheiras de Vila do Conde

O Rancho da Praça Rendilheiras de Vila do Conde através dos seus órgãos sociais toma posição pública, através de escrito, sobre o pseudo centenário do seu rival, (reiterando o já transmitido por uma anterior Direção).

Fá-lo por imperativo moral e histórico para que a história de Vila do Conde e das suas Instituições seja para os presentes e para os vindouros contada com rigor e acima de tudo com verdade.


Vila do Conde, 3 de Agosto de 2018


Os Corpos Sociais do Rancho da Praça – Rendilheiras de Vila do Conde


A verdade da mentira sobre a antiguidade dos Ranchos da Praça e do Monte

O Rancho da Praça entende poder dizer que existe enquanto tal desde 1920, pelo que o Rancho do Monte, recentemente, decidiu passar a afirmar que a sua existência vem já de 1918, para assim se arrogar o mais antigo de Vila do Conde, e mesmo o mais antigo de Portugal!!!

Em coerência com esta ficção megalómana, pôs em prática este ano comemorações dos seus fantasiados cem anos de existência.

O ridículo e a desvergonha desta postura é tão evidente que espanta qualquer pessoa séria e de bom senso a sua assunção pela direção do Rancho do Monte.

Como é que alguém em 2018 pode achar-se em melhores condições para investigar e concluir sobre o ano da fundação de um Rancho do que tantos seus antigos diretores e adeptos, muito mais próximos dos seus primórdios, que sempre afirmaram que o Rancho nasceu em 1920, como adiante iremos ver?

Quem quer debruçar-se de forma séria sobre a datação da fundação dos Ranchos da Praça e do Monte deve começar por definir o que é um rancho como estes. Estes ranchos são atualmente coletividades dotadas de uma organização, com uma direção própria, devidamente eleita em assembleia geral, que têm sócios, estatutos e estão legalizadas.

Mas em qualquer romaria antiga era comum haver ranchos que no momento se auto-organizavam espontaneamente e lá seguiam a dançar e a cantar. Já assim escrevia e cantava um trovador medieval…. "Bailemos nós todas três ai amigas / sob aquestas avelaneiras frolidas".

Como é evidente, estes ranchos espontâneos não assumiam forma de uma coletividade organizada.

O que claramente resulta de todas as pesquisas feitas na imprensa do início do séc. XX é que, antes de existirem os Ranchos da Praça e do Monte, já os jornais locais relatavam as festas a S. João referindo a formação de ranchos de rapazes e raparigas que se juntavam para irem à praia ou atirar a pedrinha à fonte; ora lhes chamavam ranchos de sanjoaneiros (A República, 23/6/1918), ora referiam a atuação no coreto do Largo dos Artistas do “rancho das Rendilheiras… … acompanhado pela Tuna dos Bons Amigos” (O Democrático, 23/6/1918).

O que qualquer pesquisa revela é que os Ranchos da Praça e do Monte são o resultado de uma transição gradual a partir dos ranchos de foliões mais espontâneos que os precederam, e isto potenciado pelas fortes e muito antigas tradições locais dos festejos de S. João que vêm de há séculos. Já no século XVI D. Manuel I saudava a Câmara de Vila do Conde pelo “amor e devoção com que os moradores da Praça de San João e Rua da Matriz veneran o seu orago”.

Comecemos então por questionar se, mesmo em 1920, os Ranchos da Praça e do Monte já estavam completamente organizados e legalizados como atualmente; e a resposta só pode ser negativa. Se o estivessem, haveria documentos a demonstrá-lo.

Quer isso dizer então que em 1920 não existiam?

Não, não quer dizer que não existiam, podiam ter, e tinham, uma existência de facto.

O que sucede com os Ranchos da Praça e do Monte, mesmo em 1920, é que não tinham ainda um grau de organização como acontecia com aquela coletividade.; a sua atividade estava a iniciar-se e podia consolidar-se ou não; só o futuro o diria, mas já existiam provas físicas e documentais da existência – bandeira, atuações, escritos, noticia e fotos.

Perante isto, de pouco vale invocar um ou outro facto isolado procurando provar que qualquer dos ranchos já existia anteriormente.

Por isso, o Rancho da Praça, em respeito pela memória dos seus fundadores, muito ponderadamente, sempre procurou alicerçar a sua história em factos sobejamente documentados, nomeadamente, nos relatos dos jornais de Vila do Conde que claramente referem a sua participação nas festas sanjoaninas de 1920 e nas que se lhe seguiram até hoje. Porque a continuidade da sua atuação é que evidenciou que não estávamos perante mais um rancho improvisado e ocasional, sem projeto de futuro (como o “Rancho das Rendilheiras” que atuou em 1919), mas perante uma coletividade destinada a continuar de forma imorredoura a honrar e fazer perdurar no tempo as tradições sanjoaninas de Vila do Conde cuja prática já vem de há séculos.

Quem desvirtuou a história de Vila do Conde e do S. João, como faz a direção do Rancho do Monte, com tanto à-vontade, dificilmente compreenderá o verdadeiro papel que nela tem ou deveria ter.

Não foram nem a Praça nem o Monte quem inventou as festas a S. João, os folguedos da festa, as idas à praia, as pedrinhas atiradas na fonte, os cantares. Tudo isso já existia desde muito antes da sua fundação.

O muito orgulho que o Rancho da Praça tem é o de ser um humilde, mas devotado continuador de tradições de há séculos que se confundem com o ser e sentir do povo de Vila do Conde; e de saber honrar e respeitar a memória e a história das suas gentes e da sua Terra.

Claro que este entendimento digno e sério da história das Instituições e de Vila do Conde será de compreensão difícil para quem não tem maior ambição que a de dançar a chula a metro.

Para que não batam também o record do disparate e possam retratar-se a tempo das inverdades que propagam, aqui publicamos em seguida o que diversos devotados adeptos do Monte, e outros, escreveram ao longo dos anos sobre a fundação do rancho, inclusive no jornal O Monte:

        - No jornal O Monte, nº 6:
        “1920 – A imprensa refere, pela primeira vez, a atuação do Rancho das Rendilheiras do Monte; é estreada a 1ª bandeira… Publica-se o primeiro livrinho de cantigas”.

        - No jornal O Monte, transcrevendo texto do Dr. João Maria dos Reis Pereira: «em 1918 e em 1919 ainda não existiam nem o Rancho do Monte nem o Rancho da Praça… a organização do Rancho do Monte, com danças “marcadas”, canções próprias e pares perfeitamente definidos, tem início no ano de 1920.

        - No jornal O Monte; artigo do Dr. Apolinário Reis Pereira, então presidente da assembleia geral:
        “Meu caro António… recolho o que escrevi e li, do alto do pavilhão, com muito entusiasmo, entre os então componentes do Rancho que, nessa noite gloriosa de S. João de 1972, festejava os seus cinquenta anos de existência”.
        - Programa do cinquentenário do Rancho do Monte, em 1972, indica 1922 como data da fundação.

        - No jornal O Monte, nº 8, de 24/6/87, sob o título “A Nossa Bandeira – 24 de Junho de 1920”:
        “O ano de 1920 tem para nós vilacondenses um significado especial. É então que aparecem pela primeira vez com danças, cantares e pares organizados, os ranchos das rendilheiras do Monte e da Praça.”

        - O padre Serafim das Neves, que morreu centenário, no livro “Azurara – Subsídios para a sua Monografia”, afirma que os dois ranchos (Praça e Monte) foram fundados em 1920, e identifica os seus diretores.

A entrevista do Sr. Presidente do Monte em 05/7/2018 ao JVC ao referir expressamente que “ambos os Ranchos nasceram em 1916, 1917 ou 1918” é paradigmática do desnorte reinante e um atentado á inteligência e memória dos nossos antepassados.

Será que são precisas mais provas de que o Rancho do Monte não existia antes de 1920?!

Haja bom senso!