SÃO JOÃO 2004

Já está instituído no povo que os festejos a São João Baptista - Padroeiro de Vila do Conde, sejam um acontecimento cultural e recreativo, religioso e profano de referencia, em grande parte, senão principalmente protagonizado pelos dois Ranchos de Rendilheiras, verdadeiras forças mobilizadoras desse povo tão arreigado e cioso das suas tradições.

A cidade ganha vida e alegria, cor e entusiasmo. As principais artérias da cidade enchem-se de cor e luz devido às ornamentações com mais nível em cada ano que passa. Os diversos espectáculos agendados pela Comissão de Festas vão ocupando as noites durante os dias de festas. Os Zés Pereiras animam o burgo assim como as Bandas de Música. As cascatas patentes em diversos pontos da cidade, inclusive a da Praça de São João da autoria do Rancho da Praça, são motivo de atracção. Mas, o acontecimento mais importante é sem dúvida a Noite de São João e o dia 24 com a Procissão do Padroeiro e a Ida à Praia.

Particularmente nestes dois dias, o povo fervilha. O bairrismo do povo vilacondense acentua-se na tradição da rivalidade existente entre a Praça e o Monte. No ar paira uma ansiedade e um nervoso miudinho porque todos estão na expectativa para saber o que cada Rancho vai apresentar na Grande Noite.

No entanto, tradicionalmente a "festa" começa precisamente um mês antes, mais precisamente na noite de 24 de Maio, em que o povo, sempre protagonizado pelos dois Ranchos, canta ao desafio quadras sanjoaninas de louvor ao Santo, as chamadas "orvalhadas", a Praça na parte de traz da Igreja Matriz, naturalmente virada para o monte, e o rancho lá de cima, junto ao muro que dá acesso ao Mosteiro de Santa Clara virado para a Praça. Como sempre, juntamente com as "orvalhadas", são cantadas também algumas quadras cuja intenção é dar algumas alfinetadas no adversário.

Este ritual mantém-se no dia 17 de Junho (a faltar oito dias), porventura com mais entusiasmo, pois também está mais próxima a Grande Noite e o momento que será o corolário de alguns meses de trabalho e de envolvimento de centenas de pessoas quer nos ensaios dos ranchos, a fazer os carros alegóricos da Marcha Luminosa, os arcos, a cascata, e um sem número de tarefas inerentes a um empreendimento desta natureza, onde apesar da entrega e do profissionalismo com que tudo é feito, é necessário estar sempre muito atento para qualquer imprevisto, pois nem tudo é possível testar durante os trabalhos de montagem.


Eis que chegamos à tão ansiada Noite de São João. As expectativas não saíram goradas. A abrir a Marcha Luminosa, a banda de Gaitas do Real Coro Toxos e Froles - o Rancho Irmão que se deslocou desde a cidade de Ferrol - Espanha para participar. A sua belíssima actuação mereceu ininterruptos aplausos durante todo o percurso. O Rancho da Praça apresentou-se com os seus quatro habituais ranchos, infantil, adulto, intermédio e velhas guardas e, algumas dezenas de Pracistas que sem fazerem parte de qualquer um ranchos que dançaria no palco instalado na Praça de São João quiseram desfilar com o seu arco e balão, num total de cerca de 400 pessoas. Além dos dois carros com amplificação sonora, fizeram parte integrante da Marcha Luminosa três carros alegóricos fantasticamente bem feitos, verdadeiras réplicas à escala da Igreja de Nosso Senhor dos Navegantes, do Monumento à Rendilheira e da secular Capela de Nossa Senhora da Guia.

No dia seguinte, na Procissão, como habitualmente três rapazes fardados levaram as lanternas a ladear o andor do Padroeiro e vários pares dos quatro ranchos que actuaram na noite anterior incorporaram a representação da Praça no local que de realce já é tradicional, no fim de todas as Associações e antecedendo a Banda de Música que fecha o préstito logo seguido de milhares de fiéis pagadores de promessas.

À noite, este ano um pouco mais tarde que o habitual, dado que a Selecção Portuguesa jogava no Euro 2004 a passagem aos quartos de final com a Inglaterra e ganhou, o Rancho da Praça saiu na frente para a Ida à Praia incorporando milhares de pessoas a cantar e a bailar em uníssono. Chegados à Praia, cumpriu-se a tradição de entoar os cânticos de louvor ao Santo e, com a mesma alegria e entusiasmo, o povo da Praça voltou ao centro da cidade e no largo do Senhor da Cruz (Largo dos Artistas), ainda se dançou durante largo tempo. Quem não soubesse que aquela gente já tinha ido à praia e volvido sempre a bailar e a cantar, teria ficado admirado por ver tanta alegria e entusiasmo naquele convívio entre diferentes idades e extractos sociais. A mística de São João arreigada nas nossas tradições exerce no povo esta cultura muito genuinamente vilacondense.

VIVA A PRAÇA